quinta-feira, 27 de setembro de 2012

CAPSaoLÉU

Não chame de senhor, senhora,
Um rapaz vinte anos mais novo.
Acreditas no Senhor, senhora...
Foi ele quem findou seu estorvo?

E foi tanto o que lhe aconteceu,
Que eu, do meu lugar,
Não pude deixar de me chocar.

Expôs seu braço nu,
Mostrando seus hematomas.
Seus olhos de um tom cru,
Como janelas aos seus sintomas.

Fico feliz de a rede a ter acolhido,
De ainda sermos humanos, e de poder
Acreditar naquilo em que lutamos.


Gabriel S. C. Bernardi


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Além do que se vê

A lâmpada acesa na casa azul... Já é noite e não se cansa ou se descansa.
Foi-se o arrebol, vermelhidão do sol, sem avisar se ficava ou se ia.
O brilhar inútil não revela o quão fútil é esse falar sem filosofia.

Para agora e olha: não foi melhor assim?

Não foi pelo manto negro da noite que tudo teve fim.
Depois de desviarmos o olhar de nós, pudemos olhar para o céu.
A nebulosa escrita em estrelas cadentes agradecia o que aconteceu.

E foi de manhã que a luz da lâmpada vã se extinguiu.

Gabriel Bernardi





quarta-feira, 29 de agosto de 2012

À deriva

Na inércia dos meus pensamentos
Eu às vezes penso poder me afogar.

Fulgura o sol vermelho
Quente vem e queima e causa todo o amor;
Conserva assim em rubro esse meu torpor.

Conversei com Maria que disse do dia
De um azul do céu e dum avião...
 


"Quem sabe um dia ainda
Fale-me sem pressa,
Numa fala linda,
Do que lhe interessa
Numa prosa boa
Sem estripulia
Mesmo sendo à toa".

 

Respondi foi isso, pois sem compromisso
É como vou fingindo
Um despreocupar.

Se um andar de ir indo,
Não for o mais lindo, me perdi e findo.

Sem nenhum lamento
Eu às vezes penso em me deixar boiar.



Gabriel S. C. Bernardi

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Leve

a vida não precisa ser tão dura, tão pesada
tem vezes que mesmo as coisas mais difíceis
as que pesam toneladas
poderiam descansar de sua própria massa
seria como amarrar balões em volta delas
e o que é leve
neste enlevo
as levaria
                                         
                                     
                                       Gabriel Bernardi



sábado, 18 de agosto de 2012

Fragmento de uma história qualquer

[...] Há uma pedra dentro do lago.

Toda a vez que se quer sair dele,
procura-se a tal pedra,
sobe-se na rocha limosa,
e o corpo emerge à superfície
de terra e grama molhada.

Acontece de as pedras tenderem a rolar.

Foi de tanto alguém pisar,
ignorar e tomar por óbvia
a posição estática daquela,
que servia como base aos corpos,
que um dia o mineral se deslocou,
partindo em busca de outras águas
sem pés descuidados [...].


Gabriel S. C. Bernardi

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Fênix

em fogo cíclico
sem início ou fim dados
dado que assim estávamos
alimentados pela própria natureza
do nosso calor

nós, nus, vimos
que nada é tão extremo
que não tenha um fim

do fogo ao pó
do pó ao nada
depois das cinzas
você voltava
em chamas e alada


Gabriel Bernardi



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Cem horas

Prenda-me,
mas se te chamares Noite
e tiveres unhas negras
para cravar em minhas costas.

Tu que és Tarde,
contigo terei momentos a sós,
sós com as árvores,
os pássaros, as calçadas e só.

De que adiantam as horas,
se quando a Música me alcança,
tudo o mais se apaga
em ritmos de lembrança?

Sinto muito, senhoras,
por não amá-las divididas.
Pois todas as suas faces,
encontro numa só Vida.

Gabriel S. C. Bernardi