sábado, 21 de setembro de 2013

Livro sem nome

Busca qualquer coisa
que mate seu tédio.
Pega da estante
um livro qualquer.

Obra de poesia,
um novo remédio.
Ah! Tudo de novo:
o livro, outro estorvo.

Quem supõe a menina,
se incomoda com o clima
de chuva e distância.

Reconhece incerto
um nome por cima
sem te fazer perto.

 
                                                        Gabriel Bernardi



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Dispar de si

Quanto mais alguém vive de aparências
- ao que parece -,
mais dispar de si
se fica.

A parceria entre eu e si
se dissolve
e em ti
nada mais se envolve.


Gabriel Bernardi



terça-feira, 10 de setembro de 2013

Descanso

Quando o tempo é mais sentado do que sentido e a dor,
bem, a dor adormece.


Gabriel Bernardi



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Cela


"Se a porta da cadeia
esteve sempre aberta,
terá sido o medo ou quem sabe
o conforto que não o deixou ir?"
Cogita o carcereiro
sentado em sua cela.


                                                                              Gabriel Bernardi

domingo, 18 de agosto de 2013

A corda

Sou vítima de uma fome
de uma vontade que nasce
cresce e quer me engolir
admito o medo, pois agora
mas só por hora
sinto a prisão de amarras
e por aqui vou desviando
da fome e suas garras

Sinto outro desejo
também daqui de dentro
gêmeo da fome e diferente
querendo seguir em frente
ajudando a desfazer o nó
a mover minhas pernas
e buscar outros ares sem
esse gosto parente do pó

Se um não matar o outro
estou feliz
quem nunca viveu a vida
sem tombo ou cicatriz?


Gabriel Bernardi

sábado, 10 de agosto de 2013

A cada dia chuvoso, uma árvore renasce



os botões de rosa estão florescendo
em árvores que ajudei a regar
mesmo quando não estou por perto
as rosas continuam a brotar

enquanto uma planta cresce
há tanto mais a se admirar
em outras primaveras ou nas
plantas flutuantes do mar
 
cavo mais fundo em meu eu
para plantar e renascer o mundo
jogo as sementes à sorte do breu
esperando por um pouco de tudo

o peito que aperta de vez em quando
e só a chuva é capaz de envolver
noutros momentos quer abrir de vez
e admitir que sempre esteve amando

o problema é que nunca esteve a mando
de ninguém a não ser de seu desejo
como a árvore só verdeja em sua terra
da raiz do seu solo virá seu ensejo


                                                                               Gabriel Bernardi

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Crepúsculo dos ídolos

Meus astros caíram da redoma do ideal. Foi numa noite muito fria, nas alturas da escada que construí para alcançá-los e que já ultrapassa suas casas há muitos metros. Era eu quem então assumia o lugar no topo. Ali não era tão confortável quanto imaginei. A qualquer vacilo poderia cair. E cairia como um deles, não pertencendo mais aos lugares de onde vim. É preciso de um pouco mais de força, de um certo equilíbrio. 

Aqui a gravidade é outra e a gravidade como as coisas são encaradas também. Aqui se pode ser pai, professor, psicólogo, irmão, amigo e muito mais. Faz-se compreensível a dificuldade pela qual os que me antecederam passaram - aqui, mas sempre lá, sempre adiante... Falta-me uma casa por essas bandas,  assim como faltam outros passos por esses altos terrenos. Será interessante, isso eu já posso dizer. Resisti no início, mas acredito que será interessante. 

E mesmo aqui onde me encontro, não pretendo esquecer os degraus por onde vim. Ainda vou descê-los mais de uma vez e a minha casa será onde eu estiver. Nesse processo o que aproveitei mesmo foi o desenvolver da minha capacidade de criar, de transpor o ideal para o plano do real e ainda poder sonhar, criando objetos fantásticos no palco dos sonhos, dos olhos que se fecham, voltam-se para dentro, descansam e retornam para encarar tudo a sua volta com ânimo renovado - e quantos olhos temos quando estamos juntos! 

A felicidade de desmistificar uma estrela é entender do que ela é feita e como ela foi parar ali, para que disso se possa criar uma constelação própria, apropriando-se da vida em toda sua potencialidade.


Gabriel Bernardi