domingo, 9 de dezembro de 2012

Fita de Möbius

Desconfio desses que buscam uma tal felicidade plena.
Desprezo os que morrem em tristes melancolias.
Ser um bobo da corte: a cegueira dos que temem o açoite.
Ser orador do próprio túmulo: fuga e baixeza em acúmulo.


Do que preciso é de uma alegria triste, de um sorriso que sabe o peso dos músculos que lhe erguem e, por isso mesmo, se expressa com tamanha beleza, que o esforço é justificado em cada fibra vitoriosa - uma união de força e gozo tácitos.

Quem sabe uma triste alegria, algo meio nostálgico... Quem sabe também se deseje isso?
A dicotomia - como já deve de ser sabido entre nós - só existe virtualmente.
O que pode ser real sem uma antítese?
O que pode ser iluminado sem produzir sombras?


São constituintes de um mesmo todo.
Perceba, amor: aquele está contido naquele.
O infeliz está dentro do feliz.
"Se fora está a festa, dentro uma solidão in-festa."
Somos as superfícies que sustentam esse "dentro" e "fora".


Gabriel S. C. Bernardi


domingo, 2 de dezembro de 2012

Más caras


Há exposições e exposições... A hipocrisia tende a distorcer muitos aspectos no trato social. "Mostrar" quem se é, sem temer o julgamento alheio, poderia ser descrito com a expressão "dar a cara à tapa". "Parecer mostrar" quem se é já se trataria de uma inversão, uma confusão mesmo de quem o tenta fazer, pois é inseguro e não tem muita autonomia sobre o que faz - então dá-se a "tara à capa". Ou seja: esconde-se o desejo com uma capa, dando uma nova e irreal face ao sujeito que se disfarça. Da mesma forma, é preciso de um olhar aguçado por conta de quem interage ou observa semelhante pessoa. Seria apenas uma brincadeira de máscaras ou um jogo de más caras?


Gabriel S. C. Bernardi

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Adiante de si

Quantas árvores estão à frente,
Atravancando os passos do presente?

Quantas transposições a superar,
Desde o balanço até o altar?

Se essas perguntas me fossem
Feitas,
Seria um médico prescrevendo
Receitas.

"Para sua alma de olhos falhos:
Lentes para enxergar os galhos".

"Para o sedentarismo intelectual:
Livros - que melhores degraus?".


Gabriel S. C. Bernardi


sábado, 24 de novembro de 2012

Momento

Quando lhe disser tudo o que sinto,
Pelo tom de voz saberás: não minto.
Quando nada digo e lhe admiro,
Entendas: é pelo olhar que me refiro.

"A quê?" - perguntas.
"Para que perguntas?"


                                                                                          Gabriel S. C. Bernardi



domingo, 18 de novembro de 2012

A noite ser

Noite como contradição:
Uma deliciosa companhia
E uma tremenda solidão.


                                                             Gabriel S. C. Bernardi



terça-feira, 13 de novembro de 2012

Aguarda, chuva

Chove e o clima, como o constructo de mais elevado grau de altruísmo, pede que eu fique ao lado dela, que a enalteça, que não lhe feche a porta. Chora, chora nuvem celeste. Não há quem se preste a lhe acalmar. O pranto que escorre é água do mar. "Fico!", assim ninguém se machuca: nem eu com seus raios e trovões, nem você, pobre chuva, dilacerada de culpa, e nem a casa - de abandonada.


Gabriel S. C. Bernardi



domingo, 11 de novembro de 2012

Só rio

Clima pós-apocalíptico:
Crimes ridículos
Agora míticos.

Sinas conjugais,
Problemas tão banais.

Os redemoinhos
São quixotescos moinhos.

E aquele rio,
Que nos partia em mil,
Agora sorriu.


                                                                       Gabriel S. C. Bernardi